terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Acordei e cuidei dos cabelos com o pente de concha azulada que escondi debaixo do travesseiro. Não contei a ninguém, mas sei que o peguei durante os sonhos.
Juro!
Você deve me perguntar (ou ter se perguntado) de quem era o pente. Já que a única que pode responder com a invenção verdadeira sou eu, lá vai:
Alguma noite dessas, enquanto eu dormia, comecei a caminhar. Senti a grama por debaixo dos pés, a umidade da terra...pelo cheiro pude perceber que era madrugada e pelos sons, que estava na floresta. Adorava ir até lá, mas nunca podia escolher quando ir, muito menos se era dia, tarde ou madrugada. Dessa vez era madrugada. Os troncos roncavam barulhentamente e nem podiam sentir as vezes em que tropecei em alguns deles, estava tudo tranquilo.
Eu caminhava por que era isso que estava fazendo desde o começo, até por que, que sentido faria em parar? Estavam todos dormindo...
A lua iluminava melhor do que muita lanterna que tem por aí, pude enxergar bem e fui encontrando coisas que ficavam bem juntas. Acabei por fazer um chapéu. Eu sei que isso não tem nada a ver com o pente de concha, mas vale a pena ser dito...era um bom chapéu. Juntei umas penas de Toromoçó da Ilha com outras de Gerimbacú, amarrei com pelo comprido que emprestei de umas Calhombocós bem mansinhas. Dava até pra expor o tal do chapéu, e servia, viu? O sereno fazia curva quando via minha cabeça.
Bem, contava que caminhava...pois bem, continuei caminhando porque pra cansar enquanto dorme tem que ser muito bobo mesmo...eu não cansava.
Nunca tinha estado na floresta de madrugada, me agradava o silêncio, saber que a caça e o caçador dormem ao mesmo tempo, a poucos metros um do outro, caminhando por cidades quem sabe...enfim, eu estou habituada a todos os sons daquele lugar, e de madrugada não poderia ser diferente. Porém, um assobio bem baixinho ressoava desde que eu tinha começado a dormir e eu só fui perceber que não era coisa minha quando já estava remendando o chapéu pela segunda vez. Aquele assobio me deixou curiosa e me tirou do marasmo da noite interminável, comecei a procurar de onde é que ele vinha.
A princípio, corri bastante, muito rápido mesmo, de nem mover as folhas do chão. Devo ter flutuado! Enfim, corri muito e não adiantou nada...o assobio se mantinha baixo demais.
Comecei a ficar nervosa, o assobio que me atiçou a curiosidade agora me desafiava. Meu chapéu começou a coçar a cabeça, enfiei a mão por baixo, sem tirá-lo, para ver se era algum bichinho que coça. Não achei bichinho que coça, mas achei um filhote de Preguiça que deve ter se agarrado à minha cabeça enquanto eu corria (não me pergunte como, deve ser a Preguiça mais rápida do mundo), o ponto é: o filhote tapou meus ouvidos enquanto dormia e se agarrava ou se agarrava e dormia, enfim...Tapou meus ouvidos!
Pude perceber, agora com os ouvidos muito bem postos, de que o assobio vinha de muito perto. Fiquei extasiada!
Larguei o filhotinho na primeira árvore que vi porque sei que ele ia embora sozinho, devia correr mais que eu...E fui atrás do tal do assobio.
Ficava cada vez mais forte, dei de frente com uma árvore muito gorda. Encarei aquele tronco imenso por alguns anos, a preguicinha deve ter tido até filhotes, quando o assobio parou.
Fui dando passos ao redor da árvore enorme, a iluminação que vinha do céu era excelente e emoldurava a cena que pude presenciar.
Era uma moça de pernas compridas sentada no chão, de costas pra mim, penteando os cabelos. Mal pude ficar surpresa e a moça já se levantou, deixando o pente (é o pente!) no chão.
Ela tinha um vestido lindo de penas vermelhas e penteava um cabelo repleto de cachos com pelo menos três voltas. O pente não desfazia nenhum porque era de concha, conchas sabem como são essas voltas.
Ela se levantou, sem me ver (eu acho), levou um dos objetos que tinha pendurado num colar enorme até a boca e começou a soprar. Era o barulhinho que eu estava escutando!
Assim que o assobio recomeçou, senti com os pés a terra se revolvendo bem lá no fundo, bem de leve, quase fazia cócegas. Eram as sementes acordando com o assobio carinhoso.
A moça me viu. Sorri para ela e recebi outro sorriso em troca. Sem dizer palavra, ela me ofereceu seu pente e eu não quis recusar para não fazer má criadagem...
Não precisa me olhar assim, já vou assumir que aceitei porque queria cabelos bonitos e acho que tá dando certo, ó...







terça-feira, 27 de novembro de 2012

O trabalho árduo na concepção do projeto, representado detalhadamente, a construção simétria de alto padrão faz-se fora do papel.
Todo em harmonia com o terreno, linhas firmes e claras, predominância da ortogonalidade e racionalização, tradução do espírito da nova geração que tem todas as respostas nos bolsos.
Torna-se uma edificação impressionante quando percebe-se os materiais cuidadosamente escolhidos, vidraças intercaladas em um ritmo que chega a emocionar, facilitando a entrada da luz das 17:28 pm, que possui uma cor peculiar nos dias de poucas nuvens e é toda refletida em uma das paredes principais, criando um efeito fantástico.
Interior decorado por renomados profissionais, tendo seus móveis dispostos em lógica áurea, transforma o cotidiano dos usuários, trazendo uma leveza imprescindível.
Do paisagismo não poderia se esperar menos, grandes árvores estrategicamente plantadas, com a ajuda de pequenos arbustos, induzem o transeunte à contemplação e adentramento do volume. Flores de tonalidades complementares emolduram a construção.

Dona Maria é recepcionista.
Começou a trabalhar na construção nova à duas semanas.Desde então, voltava para casa sempre com a enxaqueca um pouco pior do que a do dia anterior.
A tal luz das 17:28 pm atingia dona Maria na altura dos olhos com uma eficácia quase robótica.
A recepção fica no saguão principal, na entrada.

Mandando à merda a lógica áurea, dona Maria encosta a mesa de recepção na parede, evitando a maldita luz que não tinha diferença nenhuma de coloração, mas que fodia sua vista e piorava sua enxaqueca. Ficou feliz da vida. Na volta do almoço ainda comprou um vasinho com flores de plástico e colocou sobre o balcão em que trabalhava, ao lado do calendário que foi brinde da distribuidora de água mineral.



domingo, 7 de outubro de 2012

cobrouro transpiralma da inspirebulição.

Se há transpiração, há calor. Calor que vem do ouro que flutua sozinho no meio do céu.
Queima a superfície esperando explodir o interior.
A transpiração implora, a transpiração transborda os orifícios da pobre cutis.
Se há inspiração, há calor. Calor que vem do couro que cobre sozinho o tudo da alma.
Alma essa, que flutua enganada que é pobre cobre.
Sem queimar não transpira pra explodir em ouro.
Melhor fazer o couro de céu e transpirar a constelação interior.
Transbordar implorando que a cutis se faça no tudo do calor.
Sozinha descobre que na inspiração do que há na vista, ebule o que há no vasto do pobre couro.
Que quem se cobre, se engana.
A esperança está em quem sente calor.





terça-feira, 18 de setembro de 2012


Enquanto o sono não me beija os olhos, os teus me mantém com os meus abertos.
Enquanto a felicidade não me faz mostrar os dentes, roo as unhas dos meus quarenta dedos.
Enquanto o mar não me molha os pés, nossas bacias já estão cheias.
Enquanto o vento não me bagunça os cabelos, lá estão tuas mãos hábeis.
Enquanto o sorvete não derrete, o meu é o seu e o seu é o meu.
Enquanto a claridade faz enrugar a vista, duas sombras gesticulam no asfalto.
Enquanto a música tem de ser inventada na hora, bocas assobiantes não hesitam.
Enquanto o adeus não chega, o universo todo nos observa.
Enquanto a chuva não me refresca a nuca, você se disfarça de ventilador.
Enquanto a fome não acorda o sapo do estômago, os doces já acabaram.
Enquanto o livro soa absurdo à maioria, sorrimos por não amarmos sozinhos.


Enquanto o mundo acaba, a gente dança.



A cafonice apaixonada escrita no papelão
não deixa de ser a síntese de
mil páginas de devaneio amoroso
feitas todas em pena de pavão.

Com esse raciocínio tonto,
toda palavra cafona que lhe
dirijo, além de sincera,
é também valiosa...ponto.





domingo, 9 de setembro de 2012

Todo sonho é parte medo.
Devia se lembrar, às vezes, do feitiço que lhe foi posto assim que ao mundo veio: não existe meio termo. Para toda felicidade profunda que provocar, virão correndo dezenas de diabinhos plantar o futuro sem ressonancia no peito de quem se fez sorrir. Fadada a escalar quase que flutuando qualquer montanha, com a condição de que a descida até o chão seja tortuosa e repleta de espectros de sei lá o que.
Aproveita, menina, enquanto sobe, disseram. Porque a descida dói e não há criatura com quem dividir.
O fardo era esse. Pacote pesado que se carrega nas costas sem ter pra quem entregar.
Toda a graça que esse mundo pode oferecer passará pelas suas mãos, atravessará outra pessoa e quando estiver tão alto que mal pode se enxergar sua silhueta, a descida começa.
Graça que não ressoa mais. Enquanto teu peito ainda arde, a descida começa.
Não vai entender o por que, menina, mas vai deixar de flutuar.








terça-feira, 7 de agosto de 2012

 Da filarmônica que mora no cantinho da orelha, quem diria que seria de dentro do velho trombone que sairia o suspiro gordo embalado em poeira?
Dispertando mistérios que são meus, mas que amarram suas pernas bem juntas com uma corda toda trançada em fumaça, a mesma que foi usada nos meus enforcamentos, tão bem sucedidos que agora escrevo. Corda querida.
Vocês, perdoem a péssima vista. O que posso dizer é que por quanto mais tempo os anéis (que já me foram bambolês) me apertam o diafragma, mais roxa fico.
Culpa da lua oca, alguns dizem. Não sei não, não sei não. Se for, tenho uma presa à goela.
Que seja. É tudo novidade, de qualquer forma.
Se o sossego tem data para dar início ao amargo, espero com as costelas expostas, exibindo o vazio que fica de nunca ter passado nenhuma outra especie ali por dentro a não ser a que acaba de partir.
Parte com uma firmeza que até então, nem ela conhecia. Firmeza essa jogada sobre mim, sei lá com a intenção de que. Sei lá a culpa que levei. Sei lá onde foi que errei.
De bailarina cosmonauta passo a espanadora pálida. Tirando as traças e aranhas de cima dos passos e saltitos incríveis.
Pendendo para a esquerda, para a direita, voltando a pender para a esquerda, sigo. Cambaleando sem cura para o prognóstico certeiro do trombone empoeirado.








sábado, 21 de julho de 2012

Acredita-se que vão longe os de asas e dão frutos grandes e belos, os de raízes. Quando se tem os dois então, que magnífica criatura se formaria!
As asas trazem um leque explendido e imenso, os prazeres de pular toda a burocracia das pedras e troncos, de olhar lá do céu, esbanjando a liberdade. Ter a mente e cabelos ao vento, se dando ao luxo de tantas piruetas...ao risco de rasantes desnecessários, o ir alto demais e acabar esturricado pelo sol.
As raízes situam, incluem, compartilham. Ah, quem nao se sente em casa com boas raízes? Fincadas bem ao fundo, firmes, velhas e sábias. Fazem crescer forte e confiante, são as melhores. Cresce-se em função delas, enquanto permitirem, pois restringem todo o perímetro.

Sou dos sem asas e raízes. Sou dos que pedem licença às pedras, dos sem garantia de voo pleno ou frutos maduros.
Achei duas molas grandes e fortes outro dia, resolvi carregá-las até pensar em amarrar aos pés, as duas molas.
Gostei muito da sensação. Não voava, mas podia ir bem alto. Não me situava, mas ficava bem firme onde quer que fosse.
Durou um tempo, até começar a olhar os outros e me sentir patético. Molas? Que idéia estúpida. Arranquei as molas dos pés, larguei pelo caminho. Continuei do jeito que fazia antes, sentindo o vento na nuca quando os que voavam passavam por mim, invejando os frutos dos de raízes fundas.
Uma noite, senti muita falta das minhas molas e fui dormir triste. O que me restava, afinal, se não elas?
O sol despontou, bateu em minhas palpebras e a vista se fez vermelha. Tateei um pouco ao redor de mim (não possuir raízes significa precisar se certificar de onde está o tempo todo) e senti as molas. A felicidade foi tanta que tive de esticá-las. Amarrei uma em cada pé, do jeito que fazia e dei o maior impulso que pude.

Não sei qual é a sensação do conforto das raízes, nem mesmo a do flutuar acima de tudo, mas nunca mais arranquei minhas molas.





quinta-feira, 21 de junho de 2012

Foi logo depois do meu terceiro copo de cachaça, eu tinha acabado de repousar o copinho de vidro, velho de boca, na mesa. De botina suja, com a terra se desprendendo a cada passo dado, foi entrando com uma calma misturada com afronta naquele botequinho maldito. Olhou pro olho de cada desgraçado sentado naquele lugar, meus olhos desgraçados. Parecia adivinhar a alma e cutucar com a unha suja as feridas. Todos sentiram os pêlos da nuca levantar, vi gente já fazendo oração.
O homem tinha um facão amarrado na cintura, a camisa aberta até o umbigo, um colete de couro de ouriço e no peito podia se ver os ossos sobressalentes, que faziam barulho quando as correntes que levava no pescoço batiam neles. Não sei apontar a idade, sei que a bagagem que levava não podia ser embrulhada em mala, não podia ser levada debaixo do braço. Era levada nas costas nuas e era pesada. Sei dizer pelos passos pesados que causavam.
Seu Reinaldo sentiu a gordura da cintura fritar, o pescoço empapuçar de suor e foi se despedindo do balconista do boteco. É engraçado como, às vezes, o mais covarde é o que toma a primeira atitude corajosa. Foi o primeiro de nós a fazer movimento.
O homem do colete de ouriço, que também levava um chapéu de aba caída na cabeça, olhou para o gordo de resguela e chutou uma cadeira, que foi correndo até ele.
"O moço tá com calor, é? Pois se sente as fagulha do cão, não é pela minha presença".
Todos se voltaram para Reinaldo, que agora tinha a camisa imprestável por conta da àgua salgada de seu corpo e que tentava gaguejar qualquer coisa em meio aos tremiliques. O homem continuou:
 "Se o inferno lhe chama, não sou eu quem traz a mensagem. Não carrego mensagem, nem aviso, nem recado, nem diz que me disse que não disse. Eu sou o fazê, eu sou o que acontece. Eu sou o que cutuca antes do pulá, eu sou o sopro de corage quando a morte grita. Se eu fosse o senhô, voltava a me sentá, mas sabendo que agora, o espeto do diabo vai tá em toda cadeira que o senhô colocá o rabo. Não lhe digo isso como mensageiro, lhe digo isso como compadre de cachaça''.
Reinaldo ficou tão atordoado que no fim até agradeceu e sentou novamente na cadeira que chegou até ele.
O dono do facão riu e olhou para o balconista, que já sabia. Serviu cachaça num copo igual ao que eu segurava, e o homem bebeu o copo...e a garrafa. Repousou ambos no balcão, com calma. Fumaça já lhe saía pelas narinas, as correntes tilintavam em seu peito magro e pude ver um dente de diamante quando arrumou o bigode com o dedão amarelo.
Ninguém se mexia, podia se ouvir o vento que passava pelas telhas e as folhas caídas arrastadas pelo chão.
O homem mantinha a serenidade, tendo todos sob o seu olhar, mesmo que não estivesse se voltando pra ninguém. Ouviu a oração de um velho magro que estava sentado perto da janela.
"Tá rezando, é?" Disse o único interlocutor do lugar. "E o que que é que Deus tá lhe falando? Que seu bucho merece meu facão?" O velho magro estremeceu e começou a suplicar "Por favor, meu senhor, não faça nada comigo, eu roubei sim....mas nunca mais hei de fazer tal coisa. Sei que o senhor é uma vingança de Deus comigo porque sei que sou um homem que merece o inferno, mas por favor, tenha piedade dessa alma".
O dono do facão gargalhou. Inflava o peito de ar e ria, cada vez mais forte. Vi que quase todos os seus dentes era preciosos. Pegou mais uma garrafa de cachaça que o balconista já tinha deixado à disposição e bebeu de um gole só.
"VIRAM SÓ? Seus filho duma égua. Eu já passei por tudo esses buteco que tem nesse mundo e é sempre a mesma coisa, vocês são todos iguais. O diabo já não tem nem tempo nem lugar prá cuidá de tanto desgraçado".
Tirou o facão da cintura e pregou na mesa, gargalhando o tempo todo.
"Ceis devem ao céu e a terra e acham que quem vem cobrá sô eu? Ceis devem a voceis memo e acham que quem vem conferir sô eu? Se cada esquina atormenta a alma, se cada cadeira espeta o rabo, se todo travesseiro parece queimar...ceis acham memo que vai ser um homem como eu que vai vingá por tudo os canto que ceis andaram desgraçando as coisa?"
Ria, ria. Tirou o facão da mesa e agora apontava pra gente, andando pelo buteco, nos julgando com aqueles olhos que atravessavam a carne.
"Eu qui não vô envenená meu facão com sangue de filho da puta. Mato só pra comer. Já matei homê sim, mas ou porque teve que vir pará no meu bucho, ou porque não acreditaram no que eu digo e quiseram, mesmo assim, que eu vingasse essa terra que ceis pisa. Eu to é cansado".
Pegou outra garrafa de cachaça e foi-se embora.




quinta-feira, 24 de maio de 2012

Os diversos tipos de histórias vêm até nós. Mesmo que nao as queiramos, mesmo que fujamos delas.
No ponto de ônibus o companheiro de espera resolve te contar alguma piada, o padeiro sempre comenta pedaços de seu existir entre um troco e outro, as senhoras que adoram tagarelar sobre os tecidos floridos, lembrando dos domingos especiais de suas vidas. As histórias simplesmente vêm até nós.
Sempre fui muito cheio delas, conheci vários homens muito eloquentes, capazes de deixar crianças e velhos boquiabertos com seus desfechos, divertindo uma quantidade considerável de pessoas...só com palavras. Os homens da minha família, todos assim, cheio de histórias. Eu nunca consegui, tinha um certo problema com os personagens, sobretudo os tristes.
Personagens tristes.
Nunca me senti apto a ponto de contar qualquer que fosse, das histórias sofridas que já tinha ouvido. Não mereço aquelas pessoas, aquelas vidas, é preciso um ritual para ouví-las. Não é questão de me alienar da tristeza, é justamente o inverso. Quando ouço palavras de tristeza, todas juntas, num enredo, consigo ver as rugas, o suor, as ruas vazias, a ausência das lágrimas.
A ausência das lágrimas. É desse tipo de história que eu estou falando...odes ao seus protagonistas, ode ao cachorro que passa sem querer pelas linhas, ode ao passarinho cinza do céu cinza do chão cinza do vestido puído. Não mereço contar as que são desse tipo e penso que quem as conta, é munido duma presunção absurda, porque até quem as viveu, nem sob o cano de uma arma contaria, por não importar mais. Por já estar tão nele, que não existe mais história. Existem as rugas, o suor, as ruas vazias e a ausência de lágrimas.
Não mereço esse tipo de história.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

texto pra ler devagar

Satisfação engraçada essa, que veio embalada em lágrimas, não sabiam dialogar com o resto do corpo.
Saíram por si só, fazendo turvo o meu pensamento e desconhecidos os lençóis.
Parte melancolia, parte gratidão, partia você de dentro de mim.
A solidão incoerente do precipitar salgado, que me fazia te olhar e nao reconhecer, como se fossemos só eu e ninguém ao mesmo tempo. Invenção minha.
Lágrimas essas que vieram ilustrar a dúvida do palpável, a surpresa sobre o confortável.
Chorei sem entender, como que por necessidade do peito. Chorei sem raciocínicio, chorei por sentir. Mostrando uma autonomia a que ainda não me habituei.
Senti saudade do previsto e medo do amor. Medo ao ponto de me envergonhar.
Passou.
Foi quando te olhei de novo e soube que era real.


sábado, 28 de abril de 2012

Lembra do que você estava falando? Então, acho tudo besteira. Juro, acho mesmo, mas não fica triste não. O fato é que graças às besteiras que você disse, eu cheguei à algumas conclusões, que podem ser besteiras também.
Besteiras essas, que são a essência. A minha. Imutável.
Outro fato é que me perco, às vezes esqueço das minhas besteiras e tento viver a dos outros, você sabe. Você sabe, mas você também esquece. Afinal, quantas sou? Nem sei mais a quem me refiro.Mas por me perder, preciso do que faça lembrar, e eu tenho. Meus desenhos, deitar numa mancha de sol, o Filipe. É, eu tenho.
O bom é que o Filipe também lembra dele fazendo essas besteiras, e eu acho ótimo ter companhia, essa companhia.
Mas o ponto não são os lembretes, mas sim o esquecer. O esquecer é bom porque depois de lembrado, sei o valor do esquecido. Enfim...
O esquecer e o lembrar de mim, por mim. Sei lá o que quero dizer...
Estou meio eufórica, meio solta, correndo sozinha nos jardins da cabeça. Gosto de compartilhar o que vejo, mas não quero que ninguém além de todas de mim saiba do que digo por si só. Eu gosto de contar, quando quero contar, se quero contar. É, essa sede de mim invade e eu acabo por querer só isso.
O mistério me faz falta, as cortinas que embaçam, as interrogações. As folhas que só eu vejo.

me mim comigo 
te   ti     contigo



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Eu sabia que tinha algo de errado.
Sabia que tinha. Porque há um tempo você deixou de me contar o que lia, rindo das vírgulas e questionando a cor do papel. Passou a ouvir, passou a observar e só.
Sinto falta, sinto falta do seu falar sem fim. Sinto falta de dormir no meio das suas frases intermináveis, sinto falta das risadas e dos assobios. Quando tudo era doce.
Nunca precisávamos de acontecimentos para termos conversas de deixar a boca seca, filosofar a respeito do meio fio e rir um do outro.
Seu silêncio sempre me assustou.
tô triste dum jeito que não ficava há um tempão...
Coloquei isso aqui porque é o melhor que eu posso fazer em relação a isso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Alguém, por favor, me diz o que que eu faço com o meu não saber o que fazer?
Dizem que somos felizes quando fazemos o que gostamos. Mas a essa altura, nem do que eu gosto eu não sei mais. É fácil dizer que se gosta conforme o que se vê, é fácil dizer que o comportamento provém do que acontece quando a curiosidade de saber o que esta longe da vista e do contexto não aparece.
A vida segue tranquila...porque somos o que somos e é isso o que temos que fazer.
E se eu quiser o que eu não tenho que fazer? E se eu preferir as bordas, os parênteses, as notas de rodapé?
tô morrendo de dor de cabeça.
Deve ser por causa do texto

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Não sei se o que eu devia escrever é um texto ou um email, não sei se o que eu devia sentir era só medo ou medo e desespero...
Já senti os dois, dormi pior do que cachorro de rua e tanto faz se chove ou faz sol.
Não sei o que vai fazer de você, por onde vai, o que vai escolher lembrar de mim...
Estou aqui, como quando suas mãos escorregaram pela minha cintura pela primeira vez.
Como quando o êxtase de felicidade me atingiu.
Sozinha, admito, mas como ninguém se apodera das memórias dos outros, há um certo tipo de segurança. Porque eu sei do que eu vou me lembrar e reviver quando estiver distraída...
O viajar entre as estrelas, pode fazer dos nossos olhos lunetas ou microscópios.
Isso ninguém me tira, nem você. Ninguém me tira a felicidade infinda, sim, infinda.
É uma pena, eu sinto muito por tudo.
Só queria que tudo continuasse sendo possível, por essa e todas as outras noites. Nossas.
A vida é bonita sim, mas eu descobri há um tempo que é linda e explode perto do rosto quando compartilhada com você.
Pense o que quiser, eu não vou mais tentar te convencer de nada, a essa altura não tem mais muito o que dizer. Imagine meus dias como quiser, com quem quiser, com as cores que quiser.
Você não sabe o que se passa por trás dos olhos da ressaca incansável.
Queria, sinceramente, que acreditasse em mim.
Como quando se inspira o perfume de alguma coisa deliciosa.
O peito expande, as costelas se movem, o corpo se esforça pra que caiba mais um pouco do melhor milímetro de atmosfera.
Devagar o ar percorre o tronco, preenche, fazendo com que o vazio que em mim vivia, fosse espremido até o fim.
Me sinto viva, cheia, como se o que tivesse respirado fosse sólido.
O perfume passeia pelas entranhas, faz carinho no peito, cabe direitinho no ápice do esforço dos pulmões e diafragma, me pertence... Todo ele.
Sou obrigada a deixar ir, o que já esteve por mim... Expiro com um pesar enorme, sabendo que o vazio volta.
Deixo ir, modificado, o aroma que me permitiu sentir a mim mesma.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

É crime sentir insatisfação sobre si mesmo? Pois se for, já preparo os punhos no aguardo das algemas.
Insatisfação? Mas que besteira! Tão jovem, ingressando na universidade, você está indo muito bem.
Pois lhe digo, não estou. Antes que me venha com essa conversa profissional e fútil, quero que escute: A vida toda, fiz o que me era proposto, alcancei o esperado para a minha idade, não decepcionei nem magonei ninguém.
Nunca saí da linha, nunca fugi à regra, nunca escapei nem fiz estripulias. Quando criança, era a primeira (e única) a perguntar: "mas será que pode?" Claro que pode, menina idiota.
A vida é feita do que não podia ser feito e alguém fez. Esse é o ponto, sou covarde.
Tão covarde que admito isso aqui, mas mantenho pose de alguém que não existe.
A coragem que não possuo trouxe a insatisfação e com ela vou ter de me acostumar, pois coragem não se aprende, não se adquire.
Eis que reconheço uma das primeiras constantes da minha vida.


Copia da agenda.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sonhos são curiosos. Tive um dos intensos ontem...
Você veio, no meio da tarde e da chuva, escondendo o cansaço que te embalava. Eu fui ao seu encontro, que nem sempre, vi sua silhueta na porta de vidro e me enchi da euforia esperada.
Por um motivo qualquer você não podia entrar, saímos na chuva.
Não sei bem se era porque estava dormindo ou se era sua companhia, sei que o caminho desapareceu debaixo dos meus pés e fomos nos transportando de um ponto ao outro. Era tão bom te ver, era tão bom ir com você...só ir.
Tinha certos movimentos que eu não podia fazer, era um daquele sonhos que a gente fica meio limitado, meio sem ar, sem falar e fazer tudo que quer. Não tinha controle.
Posso revivê-lo em 3 segundos, todo o desconforto vindo de sabe-se lá onde misturado à felicidade de te ter comigo.
Acho que só queria ser do jeito que era, mas dessa vez não tivemos chance.
Em certa altura, me vi sozinha e sem poder te chamar de volta, fui até a janela e vi sua silhueta de novo, indo.
Os nós na garganta vieram, acordei soluçando.
Senti o lençol, o travesseiro. Estava sozinha ainda, mas você não chorava mais.
Penso que não suportaria te ver chorando daquele jeito, se fosse de verdade. Penso que ia ficar sem reação, não ia saber me mover nem dizer o que queria.
Só tentaria ser do jeito que era, do jeito que eu sabia que era bom...
Nunca teria te beijado tão pouco se fosse de verdade. Não teria te deixado ir.

Vou gritar que te amo pra todas as vezes que sua silhueta me aparecer.
E se o sonho vier de novo, eu sussurro quantas vezes forem necessárias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

E é no meio da balburdia que te encontro. Estendendo a mão, convidando para uma conversa tranquila, longe de tudo aquilo.
É no meio da bagunça incômoda do mundo que conseguimos respirar aliviados, por estarmos juntos.
A dor passa, o choro seca, e tudo o que fazia o maior sentido, vira de cabeça pra baixo.
As cores tomam conta, os sorrisos se estabelecem e o que vemos é essa felicidade infinda, só ela importa.
Além do tempo, além da racionalidade da vida. É essa felicidade que toma conta dos meus pensamentos em todos os momentos...
É só com você, meu menino.
É só isso...