Todo sonho é parte medo.
Devia se lembrar, às vezes, do feitiço que lhe foi posto assim que ao mundo veio: não existe meio termo. Para toda felicidade profunda que provocar, virão correndo dezenas de diabinhos plantar o futuro sem ressonancia no peito de quem se fez sorrir. Fadada a escalar quase que flutuando qualquer montanha, com a condição de que a descida até o chão seja tortuosa e repleta de espectros de sei lá o que.
Aproveita, menina, enquanto sobe, disseram. Porque a descida dói e não há criatura com quem dividir.
O fardo era esse. Pacote pesado que se carrega nas costas sem ter pra quem entregar.
Toda a graça que esse mundo pode oferecer passará pelas suas mãos, atravessará outra pessoa e quando estiver tão alto que mal pode se enxergar sua silhueta, a descida começa.
Graça que não ressoa mais. Enquanto teu peito ainda arde, a descida começa.
Não vai entender o por que, menina, mas vai deixar de flutuar.
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