Hoje durante o banho percebi que eu estava demorando demais debaixo d'água. Percebi que estava alongando meu banho e não era apenas por ser um bom banho, não era isso...comecei a lembrar do caminho para casa, da fila do supermercado, de olhar o microondas trabalhando, de colocar o grafite na lapiseira, de estar dentro do ônibus.
Percebi, comigo, que eu sempre alongava todos esses momentos.
São as minhas pausas. Momentos que Deus coloca na vida de todos para que eles lembrem de quem são. Não sinto culpa em olhar a torneira gotejando enquanto espero o microondas apitar, não sinto que deveria estar fazendo nada além daquilo...e alongo o momento.
Finjo, para mim mesma, que meus dedos ainda não estão enrugados, que o meu ponto não está logo ali e já vou precisar descer e...continuar.
Alongo ao máximo os momentos que não dependem de mim porque todos os outros que supostamente estão sob meu controle, não são meus. São das minhas tarefas, são das minhas responsabilidades, são dos meus afazeres, são das minhas preocupações. Eu nem queria saber o significado dessas palavras.
Depois do banho a vida precisa continuar.
e onde a sorte há de te levar?
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
Para Filipe
Eu sei que tudo está bem.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que só possa te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Eu sei que tudo está bem, mas sinto vontade de chorar mesmo assim.
Por só poder te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Juro que entro em você quando me abraça. Juro que fico lá dentro, entre os ossos, me ajustando dentro de você. Juro que caibo, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Quando a luz muda, a vontade é que meus olhos fossem seus também. E que meus dedos pudessem escrever suas palavras para que eu soubesse como se sente.
Como isso não pode ser, eu os fecho e te sinto. E sei como se sente.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que o aí e o aqui fosse mais longe do que três abraços no mundo.
Mesmo que o aí e o aqui fosse o mesmo lugar,
eu ia te sentir.
Daí então, te explico, minha dificuldade em saber se estou de olhos abertos ou fechados.
Perdoe chorar, mas é por sanar a dúvida.
Eu sei que tudo está bem.
Juro que quando me beija, me atravessa. Juro que me preenche, se ajustando aos meus ossos, dentro de mim. Juro que cabe, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que só possa te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Eu sei que tudo está bem, mas sinto vontade de chorar mesmo assim.
Por só poder te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Juro que entro em você quando me abraça. Juro que fico lá dentro, entre os ossos, me ajustando dentro de você. Juro que caibo, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Quando a luz muda, a vontade é que meus olhos fossem seus também. E que meus dedos pudessem escrever suas palavras para que eu soubesse como se sente.
Como isso não pode ser, eu os fecho e te sinto. E sei como se sente.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que o aí e o aqui fosse mais longe do que três abraços no mundo.
Mesmo que o aí e o aqui fosse o mesmo lugar,
eu ia te sentir.
Daí então, te explico, minha dificuldade em saber se estou de olhos abertos ou fechados.
Perdoe chorar, mas é por sanar a dúvida.
Eu sei que tudo está bem.
Juro que quando me beija, me atravessa. Juro que me preenche, se ajustando aos meus ossos, dentro de mim. Juro que cabe, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Te sinto a todo momento.
domingo, 28 de abril de 2013
Bateu seis horas.
Estico os braços mal ajeitados por trás da cabeça, forçando todas os ossos para os lugares que costumam ficar, soltando um bocejo misturado com urro.
Vira um racaclá no cartoriozinho que eu trabalho. É até engraçado de olhar...
Dona Cecília, rechonchuda, digitando com seus dedinhos de salsicha uma palavra para cada meia hora de papo com a estagiária. O outro guichê é o da Márcia, que traz sempre diversos esmaltes e quando muito atacada, chega a mudar de cor umas três vezes por dia. Tem até um cara...Augusto sei lá o que, que todo dia tira um xerox de qualquer coisa só pra elogiar a cor das unhas do guichê 3, só sei o nome do sujeito porque uma vez pediu a cópia do RG. Acho graça.
O dono aqui é o seu Clóvis. Acho graça nesse nome. É o dono do cartório e de um bigode imenso, parece até que é o bigode que tem o seu Clóvis e lhe dita o que fazer. Sinto que gosta de mim, - o Clóvis, não o bigode - só me dá um pouco nos nervos seus trocentos cacoetes no rosto.
Trabalho com ele aqui atrás, no gabinete. Deus me livre de lidar com o público. Aqui estou perto da garrafa térmica e de umas bolachinhas que a dona Cecília traz todo dia.
Bom, a verdade é que o trabalho aqui é bem fácil, passo mais tempo procurando com o que gastar as horas do que trabalhando. Meu patrão bigodudo sabe disso, mas finge que não é verdade. Entra sempre no gabinete e abre gavetas, mexe nos arquivos, reclama um bocado. Acho graça.
Qualquer um poderia fazer o que eu faço, é verdade. Mas não me atazano com isso não, seu Clóvis simpatiza comigo, não sei se ele gostaria dos outros, já é alguma coisa.
O lugar aqui é bem pequeno, fica no primeiro andar de um predinho de três andares. No térreo funciona um açougue, nos outros eu não sei bem o que tem. As cores das paredes do cartório são de um amarelo meio sujo, já me acostumei. No gabinete tem duas gravurinhas emolduradas, uma de frente para a minha mesa e outra de frente para a mesa do seu Clóvis. As duas são cenas bucólicas, mas a que fica de frente pra mim já está bem descolorida, a beirada descolando do suporte. É o sol que bate direto nele no fim da tarde, nunca gostei muito do quadrinho. Tem também umas flores de plástico que a Márcia trouxe, disse que era pra alegrar o ambiente. Não acredito nessas coisas não. Essas florezinhas deprimem mais que o quadrinho descolando.
Bom, bateu seis horas e parece que todo o tempo do dia se resumiu nessa última meia hora. Todo mundo se movimenta mais rápido, dona Cecília faz silêncio, a estagiária estagia, Márcia agiliza os clientes de última hora, seu Clóvis treme, eu me espreguiço. Vou guardando uns papeizinhos que nem sei mais sobre o que são na minha pasta, me despeço de todos, dou uma boa olhada nos móveis, nas paredes sujas, nas flores de plástico, nos quadrinhos e na garrafa térmica e sigo meu caminho.
Sempre antes de sair faço isso e tenho certeza que nem santo nem anjo deve ver graça nessa vidinha que todo mundo leva. Mas não me atazano não, se eles não veem...eu vejo.
Estico os braços mal ajeitados por trás da cabeça, forçando todas os ossos para os lugares que costumam ficar, soltando um bocejo misturado com urro.
Vira um racaclá no cartoriozinho que eu trabalho. É até engraçado de olhar...
Dona Cecília, rechonchuda, digitando com seus dedinhos de salsicha uma palavra para cada meia hora de papo com a estagiária. O outro guichê é o da Márcia, que traz sempre diversos esmaltes e quando muito atacada, chega a mudar de cor umas três vezes por dia. Tem até um cara...Augusto sei lá o que, que todo dia tira um xerox de qualquer coisa só pra elogiar a cor das unhas do guichê 3, só sei o nome do sujeito porque uma vez pediu a cópia do RG. Acho graça.
O dono aqui é o seu Clóvis. Acho graça nesse nome. É o dono do cartório e de um bigode imenso, parece até que é o bigode que tem o seu Clóvis e lhe dita o que fazer. Sinto que gosta de mim, - o Clóvis, não o bigode - só me dá um pouco nos nervos seus trocentos cacoetes no rosto.
Trabalho com ele aqui atrás, no gabinete. Deus me livre de lidar com o público. Aqui estou perto da garrafa térmica e de umas bolachinhas que a dona Cecília traz todo dia.
Bom, a verdade é que o trabalho aqui é bem fácil, passo mais tempo procurando com o que gastar as horas do que trabalhando. Meu patrão bigodudo sabe disso, mas finge que não é verdade. Entra sempre no gabinete e abre gavetas, mexe nos arquivos, reclama um bocado. Acho graça.
Qualquer um poderia fazer o que eu faço, é verdade. Mas não me atazano com isso não, seu Clóvis simpatiza comigo, não sei se ele gostaria dos outros, já é alguma coisa.
O lugar aqui é bem pequeno, fica no primeiro andar de um predinho de três andares. No térreo funciona um açougue, nos outros eu não sei bem o que tem. As cores das paredes do cartório são de um amarelo meio sujo, já me acostumei. No gabinete tem duas gravurinhas emolduradas, uma de frente para a minha mesa e outra de frente para a mesa do seu Clóvis. As duas são cenas bucólicas, mas a que fica de frente pra mim já está bem descolorida, a beirada descolando do suporte. É o sol que bate direto nele no fim da tarde, nunca gostei muito do quadrinho. Tem também umas flores de plástico que a Márcia trouxe, disse que era pra alegrar o ambiente. Não acredito nessas coisas não. Essas florezinhas deprimem mais que o quadrinho descolando.
Bom, bateu seis horas e parece que todo o tempo do dia se resumiu nessa última meia hora. Todo mundo se movimenta mais rápido, dona Cecília faz silêncio, a estagiária estagia, Márcia agiliza os clientes de última hora, seu Clóvis treme, eu me espreguiço. Vou guardando uns papeizinhos que nem sei mais sobre o que são na minha pasta, me despeço de todos, dou uma boa olhada nos móveis, nas paredes sujas, nas flores de plástico, nos quadrinhos e na garrafa térmica e sigo meu caminho.
Sempre antes de sair faço isso e tenho certeza que nem santo nem anjo deve ver graça nessa vidinha que todo mundo leva. Mas não me atazano não, se eles não veem...eu vejo.
domingo, 10 de março de 2013
Essa noite insisti em dormir de barriga para cima, dei a primeira colherada na boca da ilusão de não ser mais o que eu vinha sendo.
Quis dormir de barriga para cima e boiar no meio daquele cubículo, como se estivesse na água e acordar quando sentisse o calor da lâmpada, feita fogueira, para queimar tudo o que não flutuava.
Alinhar o umbigo à lâmpada amarelada para tentar parir alguma coisa boa que não lembrasse o que foi.
O que é, porque não consegui dormir de barriga para cima.
Me sobrou só a angustia do dormir de bruços, do continuar sendo.
A lâmpada velha não aguentava mais me fitar as costas e a cama não suportava mais o peso do meu peito.
Pegava no sono com medo que o estrado partisse ao meio a qualquer momento, comigo afundando naquela luz amarela.
Por vezes acordei encharcado, não nego, me questionando se era suor ou tinha trazido parte do pesadelo comigo, onde encarava o fundo turvo daquela água.
O turvo de mim.
Quis dormir de barriga para cima e boiar no meio daquele cubículo, como se estivesse na água e acordar quando sentisse o calor da lâmpada, feita fogueira, para queimar tudo o que não flutuava.
Alinhar o umbigo à lâmpada amarelada para tentar parir alguma coisa boa que não lembrasse o que foi.
O que é, porque não consegui dormir de barriga para cima.
Me sobrou só a angustia do dormir de bruços, do continuar sendo.
A lâmpada velha não aguentava mais me fitar as costas e a cama não suportava mais o peso do meu peito.
Pegava no sono com medo que o estrado partisse ao meio a qualquer momento, comigo afundando naquela luz amarela.
Por vezes acordei encharcado, não nego, me questionando se era suor ou tinha trazido parte do pesadelo comigo, onde encarava o fundo turvo daquela água.
O turvo de mim.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Acordei e cuidei dos cabelos com o pente de concha azulada que escondi debaixo do travesseiro. Não contei a ninguém, mas sei que o peguei durante os sonhos.
Juro!
Você deve me perguntar (ou ter se perguntado) de quem era o pente. Já que a única que pode responder com a invenção verdadeira sou eu, lá vai:
Alguma noite dessas, enquanto eu dormia, comecei a caminhar. Senti a grama por debaixo dos pés, a umidade da terra...pelo cheiro pude perceber que era madrugada e pelos sons, que estava na floresta. Adorava ir até lá, mas nunca podia escolher quando ir, muito menos se era dia, tarde ou madrugada. Dessa vez era madrugada. Os troncos roncavam barulhentamente e nem podiam sentir as vezes em que tropecei em alguns deles, estava tudo tranquilo.
Eu caminhava por que era isso que estava fazendo desde o começo, até por que, que sentido faria em parar? Estavam todos dormindo...
A lua iluminava melhor do que muita lanterna que tem por aí, pude enxergar bem e fui encontrando coisas que ficavam bem juntas. Acabei por fazer um chapéu. Eu sei que isso não tem nada a ver com o pente de concha, mas vale a pena ser dito...era um bom chapéu. Juntei umas penas de Toromoçó da Ilha com outras de Gerimbacú, amarrei com pelo comprido que emprestei de umas Calhombocós bem mansinhas. Dava até pra expor o tal do chapéu, e servia, viu? O sereno fazia curva quando via minha cabeça.
Bem, contava que caminhava...pois bem, continuei caminhando porque pra cansar enquanto dorme tem que ser muito bobo mesmo...eu não cansava.
Nunca tinha estado na floresta de madrugada, me agradava o silêncio, saber que a caça e o caçador dormem ao mesmo tempo, a poucos metros um do outro, caminhando por cidades quem sabe...enfim, eu estou habituada a todos os sons daquele lugar, e de madrugada não poderia ser diferente. Porém, um assobio bem baixinho ressoava desde que eu tinha começado a dormir e eu só fui perceber que não era coisa minha quando já estava remendando o chapéu pela segunda vez. Aquele assobio me deixou curiosa e me tirou do marasmo da noite interminável, comecei a procurar de onde é que ele vinha.
A princípio, corri bastante, muito rápido mesmo, de nem mover as folhas do chão. Devo ter flutuado! Enfim, corri muito e não adiantou nada...o assobio se mantinha baixo demais.
Comecei a ficar nervosa, o assobio que me atiçou a curiosidade agora me desafiava. Meu chapéu começou a coçar a cabeça, enfiei a mão por baixo, sem tirá-lo, para ver se era algum bichinho que coça. Não achei bichinho que coça, mas achei um filhote de Preguiça que deve ter se agarrado à minha cabeça enquanto eu corria (não me pergunte como, deve ser a Preguiça mais rápida do mundo), o ponto é: o filhote tapou meus ouvidos enquanto dormia e se agarrava ou se agarrava e dormia, enfim...Tapou meus ouvidos!
Pude perceber, agora com os ouvidos muito bem postos, de que o assobio vinha de muito perto. Fiquei extasiada!
Larguei o filhotinho na primeira árvore que vi porque sei que ele ia embora sozinho, devia correr mais que eu...E fui atrás do tal do assobio.
Ficava cada vez mais forte, dei de frente com uma árvore muito gorda. Encarei aquele tronco imenso por alguns anos, a preguicinha deve ter tido até filhotes, quando o assobio parou.
Fui dando passos ao redor da árvore enorme, a iluminação que vinha do céu era excelente e emoldurava a cena que pude presenciar.
Era uma moça de pernas compridas sentada no chão, de costas pra mim, penteando os cabelos. Mal pude ficar surpresa e a moça já se levantou, deixando o pente (é o pente!) no chão.
Ela tinha um vestido lindo de penas vermelhas e penteava um cabelo repleto de cachos com pelo menos três voltas. O pente não desfazia nenhum porque era de concha, conchas sabem como são essas voltas.
Ela se levantou, sem me ver (eu acho), levou um dos objetos que tinha pendurado num colar enorme até a boca e começou a soprar. Era o barulhinho que eu estava escutando!
Assim que o assobio recomeçou, senti com os pés a terra se revolvendo bem lá no fundo, bem de leve, quase fazia cócegas. Eram as sementes acordando com o assobio carinhoso.
A moça me viu. Sorri para ela e recebi outro sorriso em troca. Sem dizer palavra, ela me ofereceu seu pente e eu não quis recusar para não fazer má criadagem...
Não precisa me olhar assim, já vou assumir que aceitei porque queria cabelos bonitos e acho que tá dando certo, ó...
Juro!
Você deve me perguntar (ou ter se perguntado) de quem era o pente. Já que a única que pode responder com a invenção verdadeira sou eu, lá vai:
Alguma noite dessas, enquanto eu dormia, comecei a caminhar. Senti a grama por debaixo dos pés, a umidade da terra...pelo cheiro pude perceber que era madrugada e pelos sons, que estava na floresta. Adorava ir até lá, mas nunca podia escolher quando ir, muito menos se era dia, tarde ou madrugada. Dessa vez era madrugada. Os troncos roncavam barulhentamente e nem podiam sentir as vezes em que tropecei em alguns deles, estava tudo tranquilo.
Eu caminhava por que era isso que estava fazendo desde o começo, até por que, que sentido faria em parar? Estavam todos dormindo...
A lua iluminava melhor do que muita lanterna que tem por aí, pude enxergar bem e fui encontrando coisas que ficavam bem juntas. Acabei por fazer um chapéu. Eu sei que isso não tem nada a ver com o pente de concha, mas vale a pena ser dito...era um bom chapéu. Juntei umas penas de Toromoçó da Ilha com outras de Gerimbacú, amarrei com pelo comprido que emprestei de umas Calhombocós bem mansinhas. Dava até pra expor o tal do chapéu, e servia, viu? O sereno fazia curva quando via minha cabeça.
Bem, contava que caminhava...pois bem, continuei caminhando porque pra cansar enquanto dorme tem que ser muito bobo mesmo...eu não cansava.
Nunca tinha estado na floresta de madrugada, me agradava o silêncio, saber que a caça e o caçador dormem ao mesmo tempo, a poucos metros um do outro, caminhando por cidades quem sabe...enfim, eu estou habituada a todos os sons daquele lugar, e de madrugada não poderia ser diferente. Porém, um assobio bem baixinho ressoava desde que eu tinha começado a dormir e eu só fui perceber que não era coisa minha quando já estava remendando o chapéu pela segunda vez. Aquele assobio me deixou curiosa e me tirou do marasmo da noite interminável, comecei a procurar de onde é que ele vinha.
A princípio, corri bastante, muito rápido mesmo, de nem mover as folhas do chão. Devo ter flutuado! Enfim, corri muito e não adiantou nada...o assobio se mantinha baixo demais.
Comecei a ficar nervosa, o assobio que me atiçou a curiosidade agora me desafiava. Meu chapéu começou a coçar a cabeça, enfiei a mão por baixo, sem tirá-lo, para ver se era algum bichinho que coça. Não achei bichinho que coça, mas achei um filhote de Preguiça que deve ter se agarrado à minha cabeça enquanto eu corria (não me pergunte como, deve ser a Preguiça mais rápida do mundo), o ponto é: o filhote tapou meus ouvidos enquanto dormia e se agarrava ou se agarrava e dormia, enfim...Tapou meus ouvidos!
Pude perceber, agora com os ouvidos muito bem postos, de que o assobio vinha de muito perto. Fiquei extasiada!
Larguei o filhotinho na primeira árvore que vi porque sei que ele ia embora sozinho, devia correr mais que eu...E fui atrás do tal do assobio.
Ficava cada vez mais forte, dei de frente com uma árvore muito gorda. Encarei aquele tronco imenso por alguns anos, a preguicinha deve ter tido até filhotes, quando o assobio parou.
Fui dando passos ao redor da árvore enorme, a iluminação que vinha do céu era excelente e emoldurava a cena que pude presenciar.
Era uma moça de pernas compridas sentada no chão, de costas pra mim, penteando os cabelos. Mal pude ficar surpresa e a moça já se levantou, deixando o pente (é o pente!) no chão.
Ela tinha um vestido lindo de penas vermelhas e penteava um cabelo repleto de cachos com pelo menos três voltas. O pente não desfazia nenhum porque era de concha, conchas sabem como são essas voltas.
Ela se levantou, sem me ver (eu acho), levou um dos objetos que tinha pendurado num colar enorme até a boca e começou a soprar. Era o barulhinho que eu estava escutando!
Assim que o assobio recomeçou, senti com os pés a terra se revolvendo bem lá no fundo, bem de leve, quase fazia cócegas. Eram as sementes acordando com o assobio carinhoso.
A moça me viu. Sorri para ela e recebi outro sorriso em troca. Sem dizer palavra, ela me ofereceu seu pente e eu não quis recusar para não fazer má criadagem...
Não precisa me olhar assim, já vou assumir que aceitei porque queria cabelos bonitos e acho que tá dando certo, ó...
terça-feira, 27 de novembro de 2012
O trabalho árduo na concepção do projeto, representado detalhadamente, a construção simétria de alto padrão faz-se fora do papel.
Todo em harmonia com o terreno, linhas firmes e claras, predominância da ortogonalidade e racionalização, tradução do espírito da nova geração que tem todas as respostas nos bolsos.
Torna-se uma edificação impressionante quando percebe-se os materiais cuidadosamente escolhidos, vidraças intercaladas em um ritmo que chega a emocionar, facilitando a entrada da luz das 17:28 pm, que possui uma cor peculiar nos dias de poucas nuvens e é toda refletida em uma das paredes principais, criando um efeito fantástico.
Interior decorado por renomados profissionais, tendo seus móveis dispostos em lógica áurea, transforma o cotidiano dos usuários, trazendo uma leveza imprescindível.
Do paisagismo não poderia se esperar menos, grandes árvores estrategicamente plantadas, com a ajuda de pequenos arbustos, induzem o transeunte à contemplação e adentramento do volume. Flores de tonalidades complementares emolduram a construção.
Dona Maria é recepcionista.
Começou a trabalhar na construção nova à duas semanas.Desde então, voltava para casa sempre com a enxaqueca um pouco pior do que a do dia anterior.
A tal luz das 17:28 pm atingia dona Maria na altura dos olhos com uma eficácia quase robótica.
A recepção fica no saguão principal, na entrada.
Mandando à merda a lógica áurea, dona Maria encosta a mesa de recepção na parede, evitando a maldita luz que não tinha diferença nenhuma de coloração, mas que fodia sua vista e piorava sua enxaqueca. Ficou feliz da vida. Na volta do almoço ainda comprou um vasinho com flores de plástico e colocou sobre o balcão em que trabalhava, ao lado do calendário que foi brinde da distribuidora de água mineral.
Todo em harmonia com o terreno, linhas firmes e claras, predominância da ortogonalidade e racionalização, tradução do espírito da nova geração que tem todas as respostas nos bolsos.
Torna-se uma edificação impressionante quando percebe-se os materiais cuidadosamente escolhidos, vidraças intercaladas em um ritmo que chega a emocionar, facilitando a entrada da luz das 17:28 pm, que possui uma cor peculiar nos dias de poucas nuvens e é toda refletida em uma das paredes principais, criando um efeito fantástico.
Interior decorado por renomados profissionais, tendo seus móveis dispostos em lógica áurea, transforma o cotidiano dos usuários, trazendo uma leveza imprescindível.
Do paisagismo não poderia se esperar menos, grandes árvores estrategicamente plantadas, com a ajuda de pequenos arbustos, induzem o transeunte à contemplação e adentramento do volume. Flores de tonalidades complementares emolduram a construção.
Dona Maria é recepcionista.
Começou a trabalhar na construção nova à duas semanas.Desde então, voltava para casa sempre com a enxaqueca um pouco pior do que a do dia anterior.
A tal luz das 17:28 pm atingia dona Maria na altura dos olhos com uma eficácia quase robótica.
A recepção fica no saguão principal, na entrada.
Mandando à merda a lógica áurea, dona Maria encosta a mesa de recepção na parede, evitando a maldita luz que não tinha diferença nenhuma de coloração, mas que fodia sua vista e piorava sua enxaqueca. Ficou feliz da vida. Na volta do almoço ainda comprou um vasinho com flores de plástico e colocou sobre o balcão em que trabalhava, ao lado do calendário que foi brinde da distribuidora de água mineral.
domingo, 7 de outubro de 2012
cobrouro transpiralma da inspirebulição.
Se há transpiração, há calor. Calor que vem do ouro que flutua sozinho no meio do céu.
Queima a superfície esperando explodir o interior.
A transpiração implora, a transpiração transborda os orifícios da pobre cutis.
Se há inspiração, há calor. Calor que vem do couro que cobre sozinho o tudo da alma.
Alma essa, que flutua enganada que é pobre cobre.
Sem queimar não transpira pra explodir em ouro.
Melhor fazer o couro de céu e transpirar a constelação interior.
Transbordar implorando que a cutis se faça no tudo do calor.
Sozinha descobre que na inspiração do que há na vista, ebule o que há no vasto do pobre couro.
Que quem se cobre, se engana.
A esperança está em quem sente calor.
Queima a superfície esperando explodir o interior.
A transpiração implora, a transpiração transborda os orifícios da pobre cutis.
Se há inspiração, há calor. Calor que vem do couro que cobre sozinho o tudo da alma.
Alma essa, que flutua enganada que é pobre cobre.
Sem queimar não transpira pra explodir em ouro.
Melhor fazer o couro de céu e transpirar a constelação interior.
Transbordar implorando que a cutis se faça no tudo do calor.
Sozinha descobre que na inspiração do que há na vista, ebule o que há no vasto do pobre couro.
Que quem se cobre, se engana.
A esperança está em quem sente calor.
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