domingo, 28 de abril de 2013

Bateu seis horas.
Estico os braços mal ajeitados por trás da cabeça, forçando todas os ossos para os lugares que costumam ficar, soltando um bocejo misturado com urro.
Vira um racaclá no cartoriozinho que eu trabalho. É até engraçado de olhar...
Dona Cecília, rechonchuda, digitando com seus dedinhos de salsicha uma palavra para cada meia hora de papo com a estagiária. O outro guichê é o da Márcia, que traz sempre diversos esmaltes e quando muito atacada, chega a mudar de cor umas três vezes por dia. Tem até um cara...Augusto sei lá o que, que todo dia tira um xerox de qualquer coisa só pra elogiar a cor das unhas do guichê 3, só sei o nome do sujeito porque uma vez pediu a cópia do RG. Acho graça.
O dono aqui é o seu Clóvis. Acho graça nesse nome. É o dono do cartório e de um bigode imenso, parece até que é o bigode que tem o seu Clóvis e lhe dita o que fazer. Sinto que gosta de mim, - o Clóvis, não o bigode - só me dá um pouco nos nervos seus trocentos cacoetes no rosto.
Trabalho com ele aqui atrás, no gabinete. Deus me livre de lidar com o público. Aqui estou perto da garrafa térmica e de umas bolachinhas que a dona Cecília traz todo dia.
Bom, a verdade é que o trabalho aqui é bem fácil, passo mais tempo procurando com o que gastar as horas do que trabalhando. Meu patrão bigodudo sabe disso, mas finge que não é verdade. Entra sempre no gabinete e abre gavetas, mexe nos arquivos, reclama um bocado. Acho graça.
Qualquer um poderia fazer o que eu faço, é verdade. Mas não me atazano com isso não, seu Clóvis simpatiza comigo, não sei se ele gostaria dos outros, já é alguma coisa.
O lugar aqui é bem pequeno, fica no primeiro andar de um predinho de três andares. No térreo funciona um açougue, nos outros eu não sei bem o que tem. As cores das paredes do cartório são de um amarelo meio sujo, já me acostumei. No gabinete tem duas gravurinhas emolduradas, uma de frente para a minha mesa e outra de frente para a mesa do seu Clóvis. As duas são cenas bucólicas, mas a que fica de frente pra mim já está bem descolorida, a beirada descolando do suporte. É o sol que bate direto nele no fim da tarde, nunca gostei muito do quadrinho. Tem também umas flores de plástico que a Márcia trouxe, disse que era pra alegrar o ambiente. Não acredito nessas coisas não. Essas florezinhas deprimem mais que o quadrinho descolando.
Bom, bateu seis horas e parece que todo o tempo do dia se resumiu nessa última meia hora. Todo mundo se movimenta mais rápido, dona Cecília faz silêncio, a estagiária estagia, Márcia agiliza os clientes de última hora, seu Clóvis treme, eu me espreguiço. Vou guardando uns papeizinhos que nem sei mais sobre o que são na minha pasta, me despeço de todos, dou uma boa olhada nos móveis, nas paredes sujas, nas flores de plástico, nos quadrinhos e na garrafa térmica e sigo meu caminho.
Sempre antes de sair faço isso e tenho certeza que nem santo nem anjo deve ver graça nessa vidinha que todo mundo leva. Mas não me atazano não, se eles não veem...eu vejo.





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