Hoje durante o banho percebi que eu estava demorando demais debaixo d'água. Percebi que estava alongando meu banho e não era apenas por ser um bom banho, não era isso...comecei a lembrar do caminho para casa, da fila do supermercado, de olhar o microondas trabalhando, de colocar o grafite na lapiseira, de estar dentro do ônibus.
Percebi, comigo, que eu sempre alongava todos esses momentos.
São as minhas pausas. Momentos que Deus coloca na vida de todos para que eles lembrem de quem são. Não sinto culpa em olhar a torneira gotejando enquanto espero o microondas apitar, não sinto que deveria estar fazendo nada além daquilo...e alongo o momento.
Finjo, para mim mesma, que meus dedos ainda não estão enrugados, que o meu ponto não está logo ali e já vou precisar descer e...continuar.
Alongo ao máximo os momentos que não dependem de mim porque todos os outros que supostamente estão sob meu controle, não são meus. São das minhas tarefas, são das minhas responsabilidades, são dos meus afazeres, são das minhas preocupações. Eu nem queria saber o significado dessas palavras.
Depois do banho a vida precisa continuar.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
Para Filipe
Eu sei que tudo está bem.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que só possa te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Eu sei que tudo está bem, mas sinto vontade de chorar mesmo assim.
Por só poder te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Juro que entro em você quando me abraça. Juro que fico lá dentro, entre os ossos, me ajustando dentro de você. Juro que caibo, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Quando a luz muda, a vontade é que meus olhos fossem seus também. E que meus dedos pudessem escrever suas palavras para que eu soubesse como se sente.
Como isso não pode ser, eu os fecho e te sinto. E sei como se sente.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que o aí e o aqui fosse mais longe do que três abraços no mundo.
Mesmo que o aí e o aqui fosse o mesmo lugar,
eu ia te sentir.
Daí então, te explico, minha dificuldade em saber se estou de olhos abertos ou fechados.
Perdoe chorar, mas é por sanar a dúvida.
Eu sei que tudo está bem.
Juro que quando me beija, me atravessa. Juro que me preenche, se ajustando aos meus ossos, dentro de mim. Juro que cabe, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que só possa te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Eu sei que tudo está bem, mas sinto vontade de chorar mesmo assim.
Por só poder te sentir quando fecho os olhos, passeando entre minhas lembranças.
Juro que entro em você quando me abraça. Juro que fico lá dentro, entre os ossos, me ajustando dentro de você. Juro que caibo, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Quando a luz muda, a vontade é que meus olhos fossem seus também. E que meus dedos pudessem escrever suas palavras para que eu soubesse como se sente.
Como isso não pode ser, eu os fecho e te sinto. E sei como se sente.
Te sinto a todo momento.
Mesmo com você aí e eu aqui.
Mesmo que o aí e o aqui fosse mais longe do que três abraços no mundo.
Mesmo que o aí e o aqui fosse o mesmo lugar,
eu ia te sentir.
Daí então, te explico, minha dificuldade em saber se estou de olhos abertos ou fechados.
Perdoe chorar, mas é por sanar a dúvida.
Eu sei que tudo está bem.
Juro que quando me beija, me atravessa. Juro que me preenche, se ajustando aos meus ossos, dentro de mim. Juro que cabe, sem deixar nenhum pedaço pra fora.
Te sinto a todo momento.
domingo, 28 de abril de 2013
Bateu seis horas.
Estico os braços mal ajeitados por trás da cabeça, forçando todas os ossos para os lugares que costumam ficar, soltando um bocejo misturado com urro.
Vira um racaclá no cartoriozinho que eu trabalho. É até engraçado de olhar...
Dona Cecília, rechonchuda, digitando com seus dedinhos de salsicha uma palavra para cada meia hora de papo com a estagiária. O outro guichê é o da Márcia, que traz sempre diversos esmaltes e quando muito atacada, chega a mudar de cor umas três vezes por dia. Tem até um cara...Augusto sei lá o que, que todo dia tira um xerox de qualquer coisa só pra elogiar a cor das unhas do guichê 3, só sei o nome do sujeito porque uma vez pediu a cópia do RG. Acho graça.
O dono aqui é o seu Clóvis. Acho graça nesse nome. É o dono do cartório e de um bigode imenso, parece até que é o bigode que tem o seu Clóvis e lhe dita o que fazer. Sinto que gosta de mim, - o Clóvis, não o bigode - só me dá um pouco nos nervos seus trocentos cacoetes no rosto.
Trabalho com ele aqui atrás, no gabinete. Deus me livre de lidar com o público. Aqui estou perto da garrafa térmica e de umas bolachinhas que a dona Cecília traz todo dia.
Bom, a verdade é que o trabalho aqui é bem fácil, passo mais tempo procurando com o que gastar as horas do que trabalhando. Meu patrão bigodudo sabe disso, mas finge que não é verdade. Entra sempre no gabinete e abre gavetas, mexe nos arquivos, reclama um bocado. Acho graça.
Qualquer um poderia fazer o que eu faço, é verdade. Mas não me atazano com isso não, seu Clóvis simpatiza comigo, não sei se ele gostaria dos outros, já é alguma coisa.
O lugar aqui é bem pequeno, fica no primeiro andar de um predinho de três andares. No térreo funciona um açougue, nos outros eu não sei bem o que tem. As cores das paredes do cartório são de um amarelo meio sujo, já me acostumei. No gabinete tem duas gravurinhas emolduradas, uma de frente para a minha mesa e outra de frente para a mesa do seu Clóvis. As duas são cenas bucólicas, mas a que fica de frente pra mim já está bem descolorida, a beirada descolando do suporte. É o sol que bate direto nele no fim da tarde, nunca gostei muito do quadrinho. Tem também umas flores de plástico que a Márcia trouxe, disse que era pra alegrar o ambiente. Não acredito nessas coisas não. Essas florezinhas deprimem mais que o quadrinho descolando.
Bom, bateu seis horas e parece que todo o tempo do dia se resumiu nessa última meia hora. Todo mundo se movimenta mais rápido, dona Cecília faz silêncio, a estagiária estagia, Márcia agiliza os clientes de última hora, seu Clóvis treme, eu me espreguiço. Vou guardando uns papeizinhos que nem sei mais sobre o que são na minha pasta, me despeço de todos, dou uma boa olhada nos móveis, nas paredes sujas, nas flores de plástico, nos quadrinhos e na garrafa térmica e sigo meu caminho.
Sempre antes de sair faço isso e tenho certeza que nem santo nem anjo deve ver graça nessa vidinha que todo mundo leva. Mas não me atazano não, se eles não veem...eu vejo.
Estico os braços mal ajeitados por trás da cabeça, forçando todas os ossos para os lugares que costumam ficar, soltando um bocejo misturado com urro.
Vira um racaclá no cartoriozinho que eu trabalho. É até engraçado de olhar...
Dona Cecília, rechonchuda, digitando com seus dedinhos de salsicha uma palavra para cada meia hora de papo com a estagiária. O outro guichê é o da Márcia, que traz sempre diversos esmaltes e quando muito atacada, chega a mudar de cor umas três vezes por dia. Tem até um cara...Augusto sei lá o que, que todo dia tira um xerox de qualquer coisa só pra elogiar a cor das unhas do guichê 3, só sei o nome do sujeito porque uma vez pediu a cópia do RG. Acho graça.
O dono aqui é o seu Clóvis. Acho graça nesse nome. É o dono do cartório e de um bigode imenso, parece até que é o bigode que tem o seu Clóvis e lhe dita o que fazer. Sinto que gosta de mim, - o Clóvis, não o bigode - só me dá um pouco nos nervos seus trocentos cacoetes no rosto.
Trabalho com ele aqui atrás, no gabinete. Deus me livre de lidar com o público. Aqui estou perto da garrafa térmica e de umas bolachinhas que a dona Cecília traz todo dia.
Bom, a verdade é que o trabalho aqui é bem fácil, passo mais tempo procurando com o que gastar as horas do que trabalhando. Meu patrão bigodudo sabe disso, mas finge que não é verdade. Entra sempre no gabinete e abre gavetas, mexe nos arquivos, reclama um bocado. Acho graça.
Qualquer um poderia fazer o que eu faço, é verdade. Mas não me atazano com isso não, seu Clóvis simpatiza comigo, não sei se ele gostaria dos outros, já é alguma coisa.
O lugar aqui é bem pequeno, fica no primeiro andar de um predinho de três andares. No térreo funciona um açougue, nos outros eu não sei bem o que tem. As cores das paredes do cartório são de um amarelo meio sujo, já me acostumei. No gabinete tem duas gravurinhas emolduradas, uma de frente para a minha mesa e outra de frente para a mesa do seu Clóvis. As duas são cenas bucólicas, mas a que fica de frente pra mim já está bem descolorida, a beirada descolando do suporte. É o sol que bate direto nele no fim da tarde, nunca gostei muito do quadrinho. Tem também umas flores de plástico que a Márcia trouxe, disse que era pra alegrar o ambiente. Não acredito nessas coisas não. Essas florezinhas deprimem mais que o quadrinho descolando.
Bom, bateu seis horas e parece que todo o tempo do dia se resumiu nessa última meia hora. Todo mundo se movimenta mais rápido, dona Cecília faz silêncio, a estagiária estagia, Márcia agiliza os clientes de última hora, seu Clóvis treme, eu me espreguiço. Vou guardando uns papeizinhos que nem sei mais sobre o que são na minha pasta, me despeço de todos, dou uma boa olhada nos móveis, nas paredes sujas, nas flores de plástico, nos quadrinhos e na garrafa térmica e sigo meu caminho.
Sempre antes de sair faço isso e tenho certeza que nem santo nem anjo deve ver graça nessa vidinha que todo mundo leva. Mas não me atazano não, se eles não veem...eu vejo.
domingo, 10 de março de 2013
Essa noite insisti em dormir de barriga para cima, dei a primeira colherada na boca da ilusão de não ser mais o que eu vinha sendo.
Quis dormir de barriga para cima e boiar no meio daquele cubículo, como se estivesse na água e acordar quando sentisse o calor da lâmpada, feita fogueira, para queimar tudo o que não flutuava.
Alinhar o umbigo à lâmpada amarelada para tentar parir alguma coisa boa que não lembrasse o que foi.
O que é, porque não consegui dormir de barriga para cima.
Me sobrou só a angustia do dormir de bruços, do continuar sendo.
A lâmpada velha não aguentava mais me fitar as costas e a cama não suportava mais o peso do meu peito.
Pegava no sono com medo que o estrado partisse ao meio a qualquer momento, comigo afundando naquela luz amarela.
Por vezes acordei encharcado, não nego, me questionando se era suor ou tinha trazido parte do pesadelo comigo, onde encarava o fundo turvo daquela água.
O turvo de mim.
Quis dormir de barriga para cima e boiar no meio daquele cubículo, como se estivesse na água e acordar quando sentisse o calor da lâmpada, feita fogueira, para queimar tudo o que não flutuava.
Alinhar o umbigo à lâmpada amarelada para tentar parir alguma coisa boa que não lembrasse o que foi.
O que é, porque não consegui dormir de barriga para cima.
Me sobrou só a angustia do dormir de bruços, do continuar sendo.
A lâmpada velha não aguentava mais me fitar as costas e a cama não suportava mais o peso do meu peito.
Pegava no sono com medo que o estrado partisse ao meio a qualquer momento, comigo afundando naquela luz amarela.
Por vezes acordei encharcado, não nego, me questionando se era suor ou tinha trazido parte do pesadelo comigo, onde encarava o fundo turvo daquela água.
O turvo de mim.
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