Foi logo depois do meu terceiro copo de cachaça, eu tinha acabado de repousar o copinho de vidro, velho de boca, na mesa. De botina suja, com a terra se desprendendo a cada passo dado, foi entrando com uma calma misturada com afronta naquele botequinho maldito. Olhou pro olho de cada desgraçado sentado naquele lugar, meus olhos desgraçados. Parecia adivinhar a alma e cutucar com a unha suja as feridas. Todos sentiram os pêlos da nuca levantar, vi gente já fazendo oração.
O homem tinha um facão amarrado na cintura, a camisa aberta até o umbigo, um colete de couro de ouriço e no peito podia se ver os ossos sobressalentes, que faziam barulho quando as correntes que levava no pescoço batiam neles. Não sei apontar a idade, sei que a bagagem que levava não podia ser embrulhada em mala, não podia ser levada debaixo do braço. Era levada nas costas nuas e era pesada. Sei dizer pelos passos pesados que causavam.
Seu Reinaldo sentiu a gordura da cintura fritar, o pescoço empapuçar de suor e foi se despedindo do balconista do boteco. É engraçado como, às vezes, o mais covarde é o que toma a primeira atitude corajosa. Foi o primeiro de nós a fazer movimento.
O homem do colete de ouriço, que também levava um chapéu de aba caída na cabeça, olhou para o gordo de resguela e chutou uma cadeira, que foi correndo até ele.
"O moço tá com calor, é? Pois se sente as fagulha do cão, não é pela minha presença".
Todos se voltaram para Reinaldo, que agora tinha a camisa imprestável por conta da àgua salgada de seu corpo e que tentava gaguejar qualquer coisa em meio aos tremiliques. O homem continuou:
"Se o inferno lhe chama, não sou eu quem traz a mensagem. Não carrego mensagem, nem aviso, nem recado, nem diz que me disse que não disse. Eu sou o fazê, eu sou o que acontece. Eu sou o que cutuca antes do pulá, eu sou o sopro de corage quando a morte grita. Se eu fosse o senhô, voltava a me sentá, mas sabendo que agora, o espeto do diabo vai tá em toda cadeira que o senhô colocá o rabo. Não lhe digo isso como mensageiro, lhe digo isso como compadre de cachaça''.
Reinaldo ficou tão atordoado que no fim até agradeceu e sentou novamente na cadeira que chegou até ele.
O dono do facão riu e olhou para o balconista, que já sabia. Serviu cachaça num copo igual ao que eu segurava, e o homem bebeu o copo...e a garrafa. Repousou ambos no balcão, com calma. Fumaça já lhe saía pelas narinas, as correntes tilintavam em seu peito magro e pude ver um dente de diamante quando arrumou o bigode com o dedão amarelo.
Ninguém se mexia, podia se ouvir o vento que passava pelas telhas e as folhas caídas arrastadas pelo chão.
O homem mantinha a serenidade, tendo todos sob o seu olhar, mesmo que não estivesse se voltando pra ninguém. Ouviu a oração de um velho magro que estava sentado perto da janela.
"Tá rezando, é?" Disse o único interlocutor do lugar. "E o que que é que Deus tá lhe falando? Que seu bucho merece meu facão?" O velho magro estremeceu e começou a suplicar "Por favor, meu senhor, não faça nada comigo, eu roubei sim....mas nunca mais hei de fazer tal coisa. Sei que o senhor é uma vingança de Deus comigo porque sei que sou um homem que merece o inferno, mas por favor, tenha piedade dessa alma".
O dono do facão gargalhou. Inflava o peito de ar e ria, cada vez mais forte. Vi que quase todos os seus dentes era preciosos. Pegou mais uma garrafa de cachaça que o balconista já tinha deixado à disposição e bebeu de um gole só.
"VIRAM SÓ? Seus filho duma égua. Eu já passei por tudo esses buteco que tem nesse mundo e é sempre a mesma coisa, vocês são todos iguais. O diabo já não tem nem tempo nem lugar prá cuidá de tanto desgraçado".
Tirou o facão da cintura e pregou na mesa, gargalhando o tempo todo.
"Ceis devem ao céu e a terra e acham que quem vem cobrá sô eu? Ceis devem a voceis memo e acham que quem vem conferir sô eu? Se cada esquina atormenta a alma, se cada cadeira espeta o rabo, se todo travesseiro parece queimar...ceis acham memo que vai ser um homem como eu que vai vingá por tudo os canto que ceis andaram desgraçando as coisa?"
Ria, ria. Tirou o facão da mesa e agora apontava pra gente, andando pelo buteco, nos julgando com aqueles olhos que atravessavam a carne.
"Eu qui não vô envenená meu facão com sangue de filho da puta. Mato só pra comer. Já matei homê sim, mas ou porque teve que vir pará no meu bucho, ou porque não acreditaram no que eu digo e quiseram, mesmo assim, que eu vingasse essa terra que ceis pisa. Eu to é cansado".
Pegou outra garrafa de cachaça e foi-se embora.