Acordei e cuidei dos cabelos com o pente de concha azulada que escondi debaixo do travesseiro. Não contei a ninguém, mas sei que o peguei durante os sonhos.
Juro!
Você deve me perguntar (ou ter se perguntado) de quem era o pente. Já que a única que pode responder com a invenção verdadeira sou eu, lá vai:
Alguma noite dessas, enquanto eu dormia, comecei a caminhar. Senti a grama por debaixo dos pés, a umidade da terra...pelo cheiro pude perceber que era madrugada e pelos sons, que estava na floresta. Adorava ir até lá, mas nunca podia escolher quando ir, muito menos se era dia, tarde ou madrugada. Dessa vez era madrugada. Os troncos roncavam barulhentamente e nem podiam sentir as vezes em que tropecei em alguns deles, estava tudo tranquilo.
Eu caminhava por que era isso que estava fazendo desde o começo, até por que, que sentido faria em parar? Estavam todos dormindo...
A lua iluminava melhor do que muita lanterna que tem por aí, pude enxergar bem e fui encontrando coisas que ficavam bem juntas. Acabei por fazer um chapéu. Eu sei que isso não tem nada a ver com o pente de concha, mas vale a pena ser dito...era um bom chapéu. Juntei umas penas de Toromoçó da Ilha com outras de Gerimbacú, amarrei com pelo comprido que emprestei de umas Calhombocós bem mansinhas. Dava até pra expor o tal do chapéu, e servia, viu? O sereno fazia curva quando via minha cabeça.
Bem, contava que caminhava...pois bem, continuei caminhando porque pra cansar enquanto dorme tem que ser muito bobo mesmo...eu não cansava.
Nunca tinha estado na floresta de madrugada, me agradava o silêncio, saber que a caça e o caçador dormem ao mesmo tempo, a poucos metros um do outro, caminhando por cidades quem sabe...enfim, eu estou habituada a todos os sons daquele lugar, e de madrugada não poderia ser diferente. Porém, um assobio bem baixinho ressoava desde que eu tinha começado a dormir e eu só fui perceber que não era coisa minha quando já estava remendando o chapéu pela segunda vez. Aquele assobio me deixou curiosa e me tirou do marasmo da noite interminável, comecei a procurar de onde é que ele vinha.
A princípio, corri bastante, muito rápido mesmo, de nem mover as folhas do chão. Devo ter flutuado! Enfim, corri muito e não adiantou nada...o assobio se mantinha baixo demais.
Comecei a ficar nervosa, o assobio que me atiçou a curiosidade agora me desafiava. Meu chapéu começou a coçar a cabeça, enfiei a mão por baixo, sem tirá-lo, para ver se era algum bichinho que coça. Não achei bichinho que coça, mas achei um filhote de Preguiça que deve ter se agarrado à minha cabeça enquanto eu corria (não me pergunte como, deve ser a Preguiça mais rápida do mundo), o ponto é: o filhote tapou meus ouvidos enquanto dormia e se agarrava ou se agarrava e dormia, enfim...Tapou meus ouvidos!
Pude perceber, agora com os ouvidos muito bem postos, de que o assobio vinha de muito perto. Fiquei extasiada!
Larguei o filhotinho na primeira árvore que vi porque sei que ele ia embora sozinho, devia correr mais que eu...E fui atrás do tal do assobio.
Ficava cada vez mais forte, dei de frente com uma árvore muito gorda. Encarei aquele tronco imenso por alguns anos, a preguicinha deve ter tido até filhotes, quando o assobio parou.
Fui dando passos ao redor da árvore enorme, a iluminação que vinha do céu era excelente e emoldurava a cena que pude presenciar.
Era uma moça de pernas compridas sentada no chão, de costas pra mim, penteando os cabelos. Mal pude ficar surpresa e a moça já se levantou, deixando o pente (é o pente!) no chão.
Ela tinha um vestido lindo de penas vermelhas e penteava um cabelo repleto de cachos com pelo menos três voltas. O pente não desfazia nenhum porque era de concha, conchas sabem como são essas voltas.
Ela se levantou, sem me ver (eu acho), levou um dos objetos que tinha pendurado num colar enorme até a boca e começou a soprar. Era o barulhinho que eu estava escutando!
Assim que o assobio recomeçou, senti com os pés a terra se revolvendo bem lá no fundo, bem de leve, quase fazia cócegas. Eram as sementes acordando com o assobio carinhoso.
A moça me viu. Sorri para ela e recebi outro sorriso em troca. Sem dizer palavra, ela me ofereceu seu pente e eu não quis recusar para não fazer má criadagem...
Não precisa me olhar assim, já vou assumir que aceitei porque queria cabelos bonitos e acho que tá dando certo, ó...
Você escreve bem, gosta da riqueza de detalhes e do vocabulário bem usado.
ResponderExcluirSó espero, que vc saiba, que nossos bons escritores, demoraram anos e anos, antes de terminar miseras 4, 8 linhas.
Alguns bons artistas, nunca deram suas obras como concluídas.Sempre estavam abertas a mudanças e melhoras.
Outros, chegaram a ameaçar a queimar suas obras na eminencia da morte, pois não julgavam que seus textos estavam na fase final e poderiam ser aperfeiçoados, para a nossa sorte não foram findadas.
Busque sempre criticas para fazer com que sua arte seja desenvolvida, pois é bela e com potencial.
Procure sempre melhorar, sem pressa para terminar os textos, projete-os, arquitete-os, pense bastante.Qualidade sempre será melhor do que quantidade.
São só meros palpites de alguém que não entende o suficiente do assunto, não o quanto você, um mero estudante de engenharia, mas um admirador.
paulo.l.pires@hotmail.com
Gosto do seu texto rico em detalhes, do vocabulário bem usado, do texto bem elaborado.
ResponderExcluirGrandes autores demoraram anos pra escrever 4, 8 linhas.Grandes gênios tentaram queimar suas obras na eminencia da morte, pois não consideravam suas obras como a melhor que conseguiriam fazer.
Portanto, arquete, elabore, esboce, pense nos seus textos, nunca os deixe como terminados, sempre busque aperfeiçoa-los.Qualidade sempre virá na frente da quantidade.
Não compreendo essa arte tão bem quanto você, sou apenas um estudante de engenharia, mas um admirador.
paulo.l.pires@hotmail.com
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