Acredita-se que vão longe os de asas e dão frutos grandes e belos, os de raízes. Quando se tem os dois então, que magnífica criatura se formaria!
As asas trazem um leque explendido e imenso, os prazeres de pular toda a burocracia das pedras e troncos, de olhar lá do céu, esbanjando a liberdade. Ter a mente e cabelos ao vento, se dando ao luxo de tantas piruetas...ao risco de rasantes desnecessários, o ir alto demais e acabar esturricado pelo sol.
As raízes situam, incluem, compartilham. Ah, quem nao se sente em casa com boas raízes? Fincadas bem ao fundo, firmes, velhas e sábias. Fazem crescer forte e confiante, são as melhores. Cresce-se em função delas, enquanto permitirem, pois restringem todo o perímetro.
Sou dos sem asas e raízes. Sou dos que pedem licença às pedras, dos sem garantia de voo pleno ou frutos maduros.
Achei duas molas grandes e fortes outro dia, resolvi carregá-las até pensar em amarrar aos pés, as duas molas.
Gostei muito da sensação. Não voava, mas podia ir bem alto. Não me situava, mas ficava bem firme onde quer que fosse.
Durou um tempo, até começar a olhar os outros e me sentir patético. Molas? Que idéia estúpida. Arranquei as molas dos pés, larguei pelo caminho. Continuei do jeito que fazia antes, sentindo o vento na nuca quando os que voavam passavam por mim, invejando os frutos dos de raízes fundas.
Uma noite, senti muita falta das minhas molas e fui dormir triste. O que me restava, afinal, se não elas?
O sol despontou, bateu em minhas palpebras e a vista se fez vermelha. Tateei um pouco ao redor de mim (não possuir raízes significa precisar se certificar de onde está o tempo todo) e senti as molas. A felicidade foi tanta que tive de esticá-las. Amarrei uma em cada pé, do jeito que fazia e dei o maior impulso que pude.
Não sei qual é a sensação do conforto das raízes, nem mesmo a do flutuar acima de tudo, mas nunca mais arranquei minhas molas.
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