terça-feira, 27 de novembro de 2012

O trabalho árduo na concepção do projeto, representado detalhadamente, a construção simétria de alto padrão faz-se fora do papel.
Todo em harmonia com o terreno, linhas firmes e claras, predominância da ortogonalidade e racionalização, tradução do espírito da nova geração que tem todas as respostas nos bolsos.
Torna-se uma edificação impressionante quando percebe-se os materiais cuidadosamente escolhidos, vidraças intercaladas em um ritmo que chega a emocionar, facilitando a entrada da luz das 17:28 pm, que possui uma cor peculiar nos dias de poucas nuvens e é toda refletida em uma das paredes principais, criando um efeito fantástico.
Interior decorado por renomados profissionais, tendo seus móveis dispostos em lógica áurea, transforma o cotidiano dos usuários, trazendo uma leveza imprescindível.
Do paisagismo não poderia se esperar menos, grandes árvores estrategicamente plantadas, com a ajuda de pequenos arbustos, induzem o transeunte à contemplação e adentramento do volume. Flores de tonalidades complementares emolduram a construção.

Dona Maria é recepcionista.
Começou a trabalhar na construção nova à duas semanas.Desde então, voltava para casa sempre com a enxaqueca um pouco pior do que a do dia anterior.
A tal luz das 17:28 pm atingia dona Maria na altura dos olhos com uma eficácia quase robótica.
A recepção fica no saguão principal, na entrada.

Mandando à merda a lógica áurea, dona Maria encosta a mesa de recepção na parede, evitando a maldita luz que não tinha diferença nenhuma de coloração, mas que fodia sua vista e piorava sua enxaqueca. Ficou feliz da vida. Na volta do almoço ainda comprou um vasinho com flores de plástico e colocou sobre o balcão em que trabalhava, ao lado do calendário que foi brinde da distribuidora de água mineral.



domingo, 7 de outubro de 2012

cobrouro transpiralma da inspirebulição.

Se há transpiração, há calor. Calor que vem do ouro que flutua sozinho no meio do céu.
Queima a superfície esperando explodir o interior.
A transpiração implora, a transpiração transborda os orifícios da pobre cutis.
Se há inspiração, há calor. Calor que vem do couro que cobre sozinho o tudo da alma.
Alma essa, que flutua enganada que é pobre cobre.
Sem queimar não transpira pra explodir em ouro.
Melhor fazer o couro de céu e transpirar a constelação interior.
Transbordar implorando que a cutis se faça no tudo do calor.
Sozinha descobre que na inspiração do que há na vista, ebule o que há no vasto do pobre couro.
Que quem se cobre, se engana.
A esperança está em quem sente calor.





terça-feira, 18 de setembro de 2012


Enquanto o sono não me beija os olhos, os teus me mantém com os meus abertos.
Enquanto a felicidade não me faz mostrar os dentes, roo as unhas dos meus quarenta dedos.
Enquanto o mar não me molha os pés, nossas bacias já estão cheias.
Enquanto o vento não me bagunça os cabelos, lá estão tuas mãos hábeis.
Enquanto o sorvete não derrete, o meu é o seu e o seu é o meu.
Enquanto a claridade faz enrugar a vista, duas sombras gesticulam no asfalto.
Enquanto a música tem de ser inventada na hora, bocas assobiantes não hesitam.
Enquanto o adeus não chega, o universo todo nos observa.
Enquanto a chuva não me refresca a nuca, você se disfarça de ventilador.
Enquanto a fome não acorda o sapo do estômago, os doces já acabaram.
Enquanto o livro soa absurdo à maioria, sorrimos por não amarmos sozinhos.


Enquanto o mundo acaba, a gente dança.



A cafonice apaixonada escrita no papelão
não deixa de ser a síntese de
mil páginas de devaneio amoroso
feitas todas em pena de pavão.

Com esse raciocínio tonto,
toda palavra cafona que lhe
dirijo, além de sincera,
é também valiosa...ponto.





domingo, 9 de setembro de 2012

Todo sonho é parte medo.
Devia se lembrar, às vezes, do feitiço que lhe foi posto assim que ao mundo veio: não existe meio termo. Para toda felicidade profunda que provocar, virão correndo dezenas de diabinhos plantar o futuro sem ressonancia no peito de quem se fez sorrir. Fadada a escalar quase que flutuando qualquer montanha, com a condição de que a descida até o chão seja tortuosa e repleta de espectros de sei lá o que.
Aproveita, menina, enquanto sobe, disseram. Porque a descida dói e não há criatura com quem dividir.
O fardo era esse. Pacote pesado que se carrega nas costas sem ter pra quem entregar.
Toda a graça que esse mundo pode oferecer passará pelas suas mãos, atravessará outra pessoa e quando estiver tão alto que mal pode se enxergar sua silhueta, a descida começa.
Graça que não ressoa mais. Enquanto teu peito ainda arde, a descida começa.
Não vai entender o por que, menina, mas vai deixar de flutuar.








terça-feira, 7 de agosto de 2012

 Da filarmônica que mora no cantinho da orelha, quem diria que seria de dentro do velho trombone que sairia o suspiro gordo embalado em poeira?
Dispertando mistérios que são meus, mas que amarram suas pernas bem juntas com uma corda toda trançada em fumaça, a mesma que foi usada nos meus enforcamentos, tão bem sucedidos que agora escrevo. Corda querida.
Vocês, perdoem a péssima vista. O que posso dizer é que por quanto mais tempo os anéis (que já me foram bambolês) me apertam o diafragma, mais roxa fico.
Culpa da lua oca, alguns dizem. Não sei não, não sei não. Se for, tenho uma presa à goela.
Que seja. É tudo novidade, de qualquer forma.
Se o sossego tem data para dar início ao amargo, espero com as costelas expostas, exibindo o vazio que fica de nunca ter passado nenhuma outra especie ali por dentro a não ser a que acaba de partir.
Parte com uma firmeza que até então, nem ela conhecia. Firmeza essa jogada sobre mim, sei lá com a intenção de que. Sei lá a culpa que levei. Sei lá onde foi que errei.
De bailarina cosmonauta passo a espanadora pálida. Tirando as traças e aranhas de cima dos passos e saltitos incríveis.
Pendendo para a esquerda, para a direita, voltando a pender para a esquerda, sigo. Cambaleando sem cura para o prognóstico certeiro do trombone empoeirado.








sábado, 21 de julho de 2012

Acredita-se que vão longe os de asas e dão frutos grandes e belos, os de raízes. Quando se tem os dois então, que magnífica criatura se formaria!
As asas trazem um leque explendido e imenso, os prazeres de pular toda a burocracia das pedras e troncos, de olhar lá do céu, esbanjando a liberdade. Ter a mente e cabelos ao vento, se dando ao luxo de tantas piruetas...ao risco de rasantes desnecessários, o ir alto demais e acabar esturricado pelo sol.
As raízes situam, incluem, compartilham. Ah, quem nao se sente em casa com boas raízes? Fincadas bem ao fundo, firmes, velhas e sábias. Fazem crescer forte e confiante, são as melhores. Cresce-se em função delas, enquanto permitirem, pois restringem todo o perímetro.

Sou dos sem asas e raízes. Sou dos que pedem licença às pedras, dos sem garantia de voo pleno ou frutos maduros.
Achei duas molas grandes e fortes outro dia, resolvi carregá-las até pensar em amarrar aos pés, as duas molas.
Gostei muito da sensação. Não voava, mas podia ir bem alto. Não me situava, mas ficava bem firme onde quer que fosse.
Durou um tempo, até começar a olhar os outros e me sentir patético. Molas? Que idéia estúpida. Arranquei as molas dos pés, larguei pelo caminho. Continuei do jeito que fazia antes, sentindo o vento na nuca quando os que voavam passavam por mim, invejando os frutos dos de raízes fundas.
Uma noite, senti muita falta das minhas molas e fui dormir triste. O que me restava, afinal, se não elas?
O sol despontou, bateu em minhas palpebras e a vista se fez vermelha. Tateei um pouco ao redor de mim (não possuir raízes significa precisar se certificar de onde está o tempo todo) e senti as molas. A felicidade foi tanta que tive de esticá-las. Amarrei uma em cada pé, do jeito que fazia e dei o maior impulso que pude.

Não sei qual é a sensação do conforto das raízes, nem mesmo a do flutuar acima de tudo, mas nunca mais arranquei minhas molas.